De passagem (Luis Fernando Veríssimo) via @AnitaDutra
Na vida, você precisa ser ocidental, oriental ou mediterrâneo. Estas não são classificações geográficas. Há ocidentais em Tóquio, orientais em Dallas e mediterrâneos que nunca viram mar, quanto mais o Mediterrâneo. Falamos de uma geografia do espírito.Os ocidentais são construtores. Os orientais amam o terreno virgem e resistem passivamente à construção. Os mediterrâneos aproveitam a confusão e pegam os melhores andares. Ocidental é proprietário, oriental é inquilino, mediterrâneo só está de passagem. Os ocidentais são civilizadores. Derrubam o mato, erguem cidades, cobram os impostos, controlam os correios e os transportes e mantêm um exército. Os orientais vivem em permanente pânico na cidade, pagam os impostos errados, não entendem os serviços públicos, são atropelados na rua e morrem na primeira batalha. Têm a nostalgia do mato e um certo raciocínio lento que confundem com superioridade moral. Esperam para qualquer hora a tempestade de enxofre que vai acabar com a orgia nos templos da perdição. Os mediterrâneos organizaram a orgia.Os ocidentais acreditam que há vida depois da morte. Vida, e uma justa retribuição para o esforço de cada um em aumentar o PNB.
Os orientais crêem vagamente numa reciclagem divina, pois não é o fóssil de hoje o petróleo de amanhã? Os mediterrâneos preferem não pensar nessas coisas.Tolstói era oriental, Dostoiévski era ocidental. O primeiro mediterrâneo da literatura russa foi Nabokov, que saiu cedo.Os ocidentais organizam-se em clubes fechados. Têm a volúpia do estatuto. Os orientais acreditam na fraternidade universal, o que é quase a apologia do fratricídio. Os mediterrâneos acham que qualquer compromisso com a humanidade não deve ir além de uma roda de chope. E em lugar público. No amor, os ocidentais acham que duas vezes por semana, para manter o equilíbrio hormonal, chega. Os orientais fazem de cada conjunção um rito à natureza e ao mistério do instinto. Os mediterrâneos estão atrás da cortina, filmando tudo.
Os grandes empresários são ocidentais. Os grandes artistas são orientais. Os primeiros lutam para alcançar o estilo de aproveitar a vida do mediterrâneo. Os outros sonham com a sabedoria natural do mediterrâneo. Mas o mediterrâneo não é nem um grande empresário nem um grande artista. Os mediterrâneos nunca chegam a grande coisa navida, e este é o segredo do seu sucesso. Mas não se deve pensar que os mediterrâneos encontraram a felicidade. Um mediterrâneo jamais sentirá o arrebatamento de um ocidental que completa a sua obra. O peito cheio com algum sólido empreendimento, a placa descerrada, o nome na história, a pátria agradecida. Nem compartilhará da certeza do oriental de que o seu caminho é o único certo e que por algumas coisas se deve morrer, sim. O mediterrâneo é o que fica de lado, fazendo frases de divertida ironia enquanto o essencial do mundo passa do lado. Ninguém escolhe um vinho como o mediterrâneo. Mas são os construtores que movem o mundo. E a consciência. O mediterrâneo prefere não pensar nestas coisas. Os ocidentais apostam no cavalo com o melhor retrospecto e cotação. Os orientais apostam no cavalo que desfilar melhor. Os mediterrâneos conversam com o jóquei.
“A grande mulher nua”, na íntegra, aqui: http://pt.scribd.com/doc/48656308/LIVRO-Luis-Fernando-Verissimo-A-grande-mulher-nua