Pensei na vida
Está frio em SP. A rua é um bom lugar para pensar, e pensar não me cansa. Pensar não dói. Pensar pode machucar. E mesmo quando pensando, alguma ferida é sutilmente aberta ou completamente escancarada ainda prefiro essa possibilidade do que a nulidade do conformismo e da alienação. Gosto de usar a palavra alienação porque se a gente resolve abandonar tudo o que se dejesa ou mesmo abandonar pensamentos, quaisquer que sejam, alienamo-nos do nosso ser. Por isso não desisto de pensar. Não me trairia.
Agora ouço um vento forte soprando pela janela. De verdade, mesmo sabendo do frio, eu queria por qualquer motivo andar contra o vento. Gosto da sensação. Mesmo quando é muito frio, gosto das carícias do vento no rosto. Mas gosto mesmo é das ventanias que antecedem os temporais em dias quentes, aquelas ventanias que enchem os olhos de lágrimas e poeira, aquelas em que é melhor não olhar só sentir, porque, de olhos fechados dá para sentir mais que o vento: dá pra sentir o aroma da terra que sobe, o cheiro do mato úmido. Dá pra reconhecer o perfume de alguém que passou por perto e você, de olhos fechados, não viu. De olhos fechados e caminhando é preciso ouvir mais. É preciso inclusive que os pés sejam como mãos tateando o chão e evitando obstáculos. Gosto do vento. Em dias quentes ou frios. Ele purifica minha alma. Leva longe os pensamentos ruins. Aqueles que podem machucar.
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