Invasões domiciliares e a atitude filosófica
Cena 1: imaginemos cada um de nós, em nossas respectivas casas numa bela noite de verão. Estamos sentados no sofá, reunidos em família ou lendo um livro. Agora imaginemos que em questão de segundos um grupo com cerca de 20 pessoas, homens e mulheres, invadam o ambiente, sentem-se ao seu lado, tirem-lhe o livro das mãos ou mesmo interrompam o assunto que você e seus entes queridos tratavam.
Cena 2: um jovem morador da periferia, office-boy, com cerca de 16 anos, após um exaustivo dia de trabalho está na escola participando de uma aula de história. Ao olhar para o relógio, percebe que já são 21h40 e que em pouco menos de 30 minutos a TV exibirá um programa onde lindas garotas desfilam com biquínis pouco maiores que os mesmos que elas usavam quando ainda eram crianças, e com todo o seu charme e outros predicados provocam a fantasia, a cobiça e muitas desavenças no ambiente em que estão confinadas junto a outras como elas e a garotões pseudo saudáveis, com barrigas talhadas e usando suas sungas brancas. O jovem imediatamente deixa a sala, os colegas e a importante aula, afinal, naquela terça-feira uma das novas celebridades criadas pelo programa será eliminada da competição e deixará de concorrer a um prêmio de alguns milhares de Reais.
Cena 3: uma mulher, com cerca de 40 e poucos anos, antes de deitar-se ao lado do marido que já ronca na velha cama do casal, olha-se no espelho à procura de defeitos em seu corpo que começa a sentir os leves efeitos da idade que insiste em avançar dia após dia, e pensa que aquele homem que ali está deitado e dormindo um dia fez juras de amor e fidelidade a um corpo que já não é mais o mesmo. A mulher volta-se para a TV que ainda insiste em mostrar corpos esculpidos por academias e cirurgiões plásticos. Ela desliga a TV e apaga a luz, afinal é melhor que não se veja mais no espelho. Ele já não mostra mais o que ela queria ver.
As cenas descritas acima são hipotéticas e imagino que devam acontecer diariamente em milhões de lares brasileiros. Mas e a filosofia? Onde ela aparece, afinal?
Aparece em cada uma dessas cenas também. Aparece no incômodo causado pelas pessoas que, mesmo elas estando em cativeiro, insistimos em trazê-las para dentro de nossas casas. A filosofia aparece para aquele office-boy da periferia e também para a mulher que sente-se pouco desejada, pelo marido, e por ela mesma. Ou ao menos deveria aparecer.
Vivemos um tempo de celebridades fabricadas, que permeiam nossa vida com futilidades, pequenas intrigas, sonhos de consumo e corpos que são tratados como modelo de beleza, vitalidade e virilidade.
Todas as afirmações e constatações acima servem para que cada um de nós, dicentes ou docentes em filosofia, consigamos perceber que no cotidiano a atitude filosófica pode e deve servir às pessoas com questões e críticas, mas principalmente oferecendo caminhos que fujam ao senso-comum e das palavras óbvias proferidas por apresentadores de reality-shows (e que supostamente são pessoas cultas).
No cotidiano, nas cenas acima descritas, poderíamos ter muitos desfechos mas creio que alguns, se analisados e vividos de forma crítica seriam bem diferentes:
- A aceitação da invasão domiciliar seria substituída pelo questionamento à qualidade e ao conteúdo dos “invasores”. Seria fácil perceber que até mesmo a PhD em linguística foi adestrada, domesticada pelos meios de comunicação em massa. A mesma deixaria Umberto Eco ruborizado e faria-o sentir que a aplicada “doutora e professora” esqueceu-se de todas as aulas que participou ou lecionou;
- O jovem da periferia notaria que a aula de história lhe dá condições de entender o contexto em que vive e que a partir desse entendimento ele poderia fazer escolhas mais consistentes para sua vida. Notaria que a história da sua vida pode ser vista na história de seus antepassados. Perceberia que o futuro poderia ser diferente e que os grandes nomes que mudaram o mundo foram em sua grande maioria grandes conhecedores da história do mundo, no mínimo de seu tempo;
- A triste esposa perceberia que o corpo padronizado só torna-se padrão porque outras pessoas, bem como ela, aceitam esse padrão e que tais modelos interessam a uma indústria que se beneficia de toda sua tristeza para vender falsas alegrias em forma de comprimidos, cápsulas ou frascos com produtos que prometem a eterna juventude.
Conclusão
A atitude filosófica, independentemente de quanto admiremos determinado pensador ou escola filosófica, pode e deve fazer com que cada um de nós e também as pessoas que vivem a nossa volta notem-se como seres pensantes, que tem potencial para olhar o mundo com um olhar mais curioso do que o de um voyeur eletrônico, e que não são facilmente afetadas por causa da última fofoca televisiva, do gay beijando a patricinha, ou mesmo estristeçam-se porque o bom menino do cativeiro chamado reality-show foi superado pelo garoto ruim. Aliás, bem e mal é algo que quase sempre pode ser discutido, mas que tenho dúvidas se merece sê-lo na observação de um show da realidade, que de realidade não tem nada.