A Filosofia é Filha da Cidade?
Essa é uma afirmação bastante contundente. Poderíamos citar algumas dezenas de nomes que mereceriam o mesmo título. Mas não. Nenhum pensador, nenhum matemático, filósofo ou rei foi ou será mais ilustre.
Vejamos o quadro:
- Uma região construída e reconstruída diversas vezes e por diversas culturas, orientais e ocidentais;
- Berço de homens e mulheres que viveram seu tempo de acordo com a Pólis e suas leis, que eles mesmos criaram e seguiam;
- A Pólis onde a democracia foi concebida e cresceu na sua aplicabilidade;
- Uma terra que inspirou pensamentos sobre as coisas físicas e metafísicas.
Esses são apenas alguns pontos que devem ser citados para construirmos uma argumentação sólida que nos permita responder “Qual o sentido em se dizer que a Filosofia, dentro de seus limites e inovações, é filha da cidade?”.
A resposta, ao meu ver, só pode começar a ser respondida analisando um ponto específico: a metafísica. A pergunta “De onde viemos?” que até hoje move o homem a muitas reflexões foi fator impulsionador para que a Filosofia nascesse nos moldes que a estudamos e a fazemos. A partir da ruptura de um pensamento mítico, onde reis tinham o poder sobre a vida e sobre a morte, substituído pela razão, o questionamento tem sido o grande motor da evolução da sociedade e permite afirmar que essa razão, faz da Filosofia a filha da cidade.
Essa sociedade que valorizava o diálogo, onde o grande ponto de encontro era a Ágora, e que os reis esperavam de seus súditos reflexões que seriam transformadas em leis, é a grande inspiradora do que conhecemos hoje como cidade.
Seria até possível, talvez ousado mas não incabível dizer, que além de filha da cidade, a Filosofia pode ser a madrinha de todas as cidades do hoje, de toda uma organização social, pois, não fosse pode ela, teríamos modelos míticos em voga, reis-deuses ou deuses-reis, não fazendo da vida uma vida plena e que permite a constante evolução de pensamento, mas uma vida fechada em lendas e histórias que nunca trariam a evolução social como conhecemos.
Importante lembrar ainda que, como todo filho, a Filosofia não é somente a boa filha. Ela ainda traz consigo uma rebeldia necessária à emancipação patriarcal. No momento em que questionamentos e críticas são utilizadas não para o bem comum, mas para a manutenção de regimes de exceção ou de metafísicas alienantes é o nome da Filosofia que aparece como alicerce e aí ela porta-se como a filha indesejada e mal agradecida. Mas como em todo rebelde a dúvida é onipresente e a busca da uma verdade constante, a Filosofia reconquista sempre seu lugar e se auto-questiona trazendo à tona seu lado mais nobre.
Hoje, mais de nunca, precisamos olhar para essa filha-madrinha com grande admiração, respeito e quiçá um tanto de dúvida, para que a mesma torne-se em nós a força motriz que nos leva ao bem, vivendo a vida como na Pólis Grega e transformando nossas relações pessoais e profissionais em grandes discussões nas Ágoras do nosso século.