Humano Demasiado

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A difícil arte de escolher entre a pílula vermelha e a azul.

Há 4 meses ocorreu uma mudança brusca em meus hábitos, principalmente os relacionados à web. Uma mudança de emprego, ao mesmo tempo que me colocou a exatos 5 minutos de casa também me afastou do mundo online. Isso não quer dizer que eu tenha me alienado, ou até deixado de ver meus e-mails. Não, não foi isso, mas deixei de atualizar meu Tumblr, as twittadas rarearam, o MSN ficava como busy e a internet voltou a ser o que um dia foi: fonte de referências para novos trabalhos e pesquisa para meus assuntos acadêmicos. Isso aconteceu por causa do volume de trabalho que acumulei nesse novo emprego, então, a web passou a ser luxo mesmo.

Quando chegava em casa, cansado depois de uma longa lista de layouts, campanhas e peças criadas, a última coisa que queria era ligar o computador. Confesso que nas duas primeiras semanas passei por um processo de desintoxicação e por uma crise de abstinência. Me sentia isolado do mundo, sem saber qual era o último hit no You Tube ou o trend topic do momento. Descobri que o elo com meus amigos era o msn. E pra piorar, não tinha como dizer “ouve só a banda nova que achei, é muito foda!”.

Pela primeira vez em anos, me senti offline.

Esse processo de desintoxicação foi se crescendo, até que chegou um ponto onde nem do MSN mais eu me lembrava. Que absurdo! Por outro lado, comecei a perceber uma ligeira melhora em minha memória. As coisas que via andando (a pé!!!!) pela rua me faziam recordar outras tantas. Notei que muitos dos livros que eu queria/deveria ter lido estavam em minhas prioridades e sendo lidos. Sem poder perguntar no Twitter “O filme X é bom?”, fazia isso com as pessoas ao meu lado. E sabe o que é melhor? A resposta vinha em muito mais do que 144 caracteres, além de ser acompanhada de expressões faciais, onomatopeias e mesmo palavrões para dizer se tal filme valia ou não o ingresso. Ví mais filmes em 4 meses do que nos últimos 2 anos.

Outra coisa muito legal foi voltar a olhar as bancas de revistas como locais sagrados. Foi tanta coisa nova que lí, toquei em tantos papéis diferentes, senti tanto cheiro de tinta fresca ou mofo (no caso de revistas e livros compradas em sebos), que em determinado momento me esqueci que eu era um ser online. Eu vivia como há 10 anos. E estava feliz.

Num determinado dia, resolvi dar uma olhada no Twitter e aí veio uma recaída. Como podia estar acontecendo isso? Eu não sabia que a nova banda do momento era a fulana de tal. Eu desconhecia o mais novo famoso cyber-star. Mas no momento da recaída constatei algo muito sério: o mundo online é fantástico, mas não substitui o vento na cara, o som da rua ou a lágrima num palco de teatro.

Percebi também que os “famosos” nomes do Twitter são bem menos famosos do que seus posts imaginam. Notei que a TV ainda produz muito mais informação de massa que qualquer blog com x zilhões de page-views. Observei que o mainstream da web se comporta como indie, mas que quer ganhar como mainstream, ou ao menos arrotar os convitezinhos ou os jabás que recebem de marcas que acham que só o que está online é relevante.

E de novo uma mudança. Saí do emprego, voltei a ficar duas horas e meia por dia no trânsito, checando meu e-mail de tempo em tempo, fotografando coisas com o celular e postando no Twitpic, e agora aqui estou eu escrevendo este post, que vai ser publicado em meu Tumblr e depois de criar uma URL no migre.me para assim postá-la no Twitter, poderá ser lida por meia-dúzia de seguidores que acharão o texto relevante.

Contraditório, não?

Ah, e a respeito das pílulas azuis ou vermelhas, ainda não descobri qual devo tomar, se é que já não tomei.

P.S.: Não ví o final de Lost, não usei o mais novo app do i-Phone nem fui num evento de redes sociais onde todos os nerds se reuniram para gabar-se de seu page-rank, em compensação, pude ver minha filha livra-se das rodinhas da bicicleta e correr livremente num parque estampando um sorrisão na cara enquanto o cabelinho dela esvoaça por causa do vento.

  • 1 year ago
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Coisas que gosto. Reflexões a partir de novas vivências. Crítica, opinião, mau-humor e café sem açúcar, por favor.
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